ISSO NÃO É UM FILME? HERÓIS E CELEBRIDADES
DO BRASIL CONTEMPORÂNEO[1]
Micael Herschmann e Carlos Alberto Messeder Pereira - UFRJ/NEPCOM
O fenômeno do estrelato consiste em tudo o que é publicamente disponível sobre astros. (...) a imagem de um astro é também o que pessoas, críticos ou comentaristas dizem ou escrevem sobre ele, e a maneira como a imagem é usada em outros contextos, propagandas, romances, canções populares e, finalmente, a forma pela qual o astro se torna parte da conversa diária (...) As imagens dos astros são sempre extensivas, multimídia e intertextuais.[2]
(...) nada é melhor do que exibir uma celebridade recentemente falida[3]
Introdução
Nas últimas décadas, o culto às celebridades vem se expandindo numa velocidade espantosa. Apesar do seu prestígio cada vez maior, as celebridades não necessariamente exibem no seu currículo realizações extraordinárias. No Brasil, nos últimos anos, assistimos ao incremento do culto à fama em proporções e dinâmicas nunca antes vistas. Ao lado do star system tradicional que lança galãs e atrizes, vemos surgir na mídia uma infinidade de celebridades que praticamente não dependeram de nenhum mérito para alcançar a fama. É o que revela o sucesso alcançado por uma “constelação de estrelas” como Adriane Galisteu, Roberto Justus, Vera Loyola, Sacha, Tiazinha, o gago David entre outros[4].
O ponto de partida da minha análise é a constatação de que a cultura contemporânea está profundamente marcada pela produção biográfica. A narrativa biográfica nos noticiários e no material ficcional está tão disseminada que alguns autores como Gabler, Roth e Boornstin sugerem que a “vida, em certo sentido, virou um filme. Com a sua difusão cada vez maior nos meios de comunicação, nas novas tecnologias, a vida estaria se tornando um entretenimento, um espetáculo grandioso e ininterrupto. Esse fato, segundo Gabler, traz uma conseqüência para o debate sobre os impactos da espetacularização sobre a sociedade contemporânea: a questão não é se a “filme-vida”[5] (a vida como entretenimento) representa um “escapismo” ou não. O ponto é que são essas narrativas biográficas não presenciais e mediáticas nos abastecem de sentidos e significados, orientam em grande medida as nossas vidas. Como o autor sugere, “aprendemos finalmente a como escapar da vida para a vida”[6].
Esse trabalho pretende problematizar o papel sociocultural das narrativas biográficas nas sociedades contemporâneas. Parte-se aqui do pressuposto de que, mesmo que a vida tenha se tornado entretenimento, ela não produz só recreação, distração. Ao que tudo indica, como os livros de auto-ajuda, ela presta um serviço psicológico inestimável, atendendo demandas por referências por parte dos indivíduos.[7] O seu sucesso de mercado nos permite refletir sobre o que representa essa demanda social pelo biográfico. Evidentemente, por um lado, representa um pouco de voyeurismo, bisbilhotice da vida alheia, mas, por outro, uma intensa preocupação em se produzir referências num mundo cada vez mais desterritorializado. Em última instância, vem tanto representando uma forma de afastar o terror da “amnésia coletiva” quanto oferecendo “provas materiais da nossa condição humana”[8]. Vivemos em sociedades em que a memória constitui-se numa grande obsessão, num importante sinal da cultura contemporânea[9]. Tornamo-nos cada vez mais dependentes de uma memória exterior, mecânica/artificial. Esse é o preço que tivemos que pagar pela expansão do nosso conhecimento[10], pela transformação do passado em um “território estrangeiro”[11]. O biográfico, portanto, ofereceria uma “bússola, uma “âncora temporal” num mundo cada vez mais veloz e fragmentário, constituir-se-ia numa forma de lidar de modo mais pessoal com uma massa infinita de informações[12].
Nesse contexto, a mídia emerge como principal espaço de produção e de experiência do biográfico. Ao contrário do que sugerem as teses mais sombrias, a mídia pode ser um espaço para potencialização de sentidos e significados, podendo se constituir num importante “lugar da memória”[13] na cultura contemporânea. Estamos encarando a mídia não como um dispositivo que leva apenas ao esquecimento, ao escapismo, ao esfacelamento da memória, mas sim como um veículo em que a amnésia e agenciamento simbólico/afetivo podem coexistir e se relacionar, mesmo que forma tensa e contraditória. Assim, além da fruição, do prazer e do divertimento, as narrativas biográficas podem também estar atendendo a uma carência, a uma demanda social: a) algumas têm função pedagógica, tem caráter exemplar e/ou heróico (como geralmente é associado à trajetória de Zumbi, Tancredo Neves ou Ayrton Senna), outras sugerem estilos de vida (como, por exemplo, a de Cazuza); b) e existem aquelas que nos seduzem pela sua capacidade de nos por em contato com alteridades (como, por exemplo, a de Chiquinha Gonzaga). Evidentemente, a maneira como são construídos esses personagens é importante no sentido de mapear um campo para eles no imaginário social, entretanto, os significados que são associados a essas trajetórias de vida pública são também em grande medida determinados pelo agenciamento do público, isto é, do que cada um elabora a partir das narrativas biográficas. Assim, o que para muitos é uma trajetória heróica, para outros sugere estilos de vida ou mesmo a possibilidade de contato como o outro. Aliás, com a “crise de identidade” contemporânea, nada impede que o mesmo indivíduo atribua sentidos diferentes a uma mesma trajetória de vida pública.
O eu múltiplo, fragmentário e mediado
Em certo sentido, algumas das características do mundo contemporâneo explicariam a relevância do biográfico. A questão da fragmentação da identidade, por exemplo – que viria se acentuando nas sociedades contemporâneas em função de inúmeras mudanças –, acentuaria a demanda do biográfico.
As chamadas novas tecnologias de transporte e comunicação, aliadas ao processo de globalização, têm alargado a nossa experiência para muito além das fronteiras territoriais que nos rodeiam e que (re)definem nossas comunidades de pertencimento. Os novos dispositivos, ao romperem as barreiras de tempo e espaço, definem novos horizontes de experiência, instaurando outros tipos de vínculos sociais, favorecendo a transitoriedade ou instabilidade identificatória.
(...) essas mudanças vem transformando as sociedades modernas no final deste século, fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnicidade, raça e nacionalidade que nos deram localizações sólidas como indivíduos sociais. Estas transformações estão também modificando nossas identidades pessoais, enfraquecendo o próprio sentido de nós mesmos enquanto sujeitos integrados.(...)Isto produz o sujeito pós-moderno, conceituado como isento de identidade fixa, permanente ou essencial. A identidade tornou-se uma ‘festa móvel’: formada e transformada continuamente em relação às maneiras pelas quais somos representados e tratados nos sistemas culturais que nos circundam. Ela é histórica, não biologicamente definida. O sujeito assume identidades diferentes em momentos diversos, identidades que não estão unificadas em torno de um ‘self’ coerente. Dentro de nós coexistem identidades contraditórias, pressionando em direções diversas, de modo que nossas identificações estão sendo continuamente mudadas.[14]
A identidade, portanto, deixou de ser um território bem demarcado e passou a delinear um espaço social transitório, tornou-se um rótulo. Vários referenciais identitários nos norteiam, inclusive alguns contraditórios. Neste cenário, a identidade e também a memória vêm se evidenciando como construções sociais: construídas na interação com o outro, a partir de convenções, no jogo social. Uma das características da sociedade contemporânea é justamente a existência e percepção de diferentes visões de mundo e estilos de vida[15].
E como estabelecer uma ordem, nem que seja temporária, neste mundo fragmentado? Como não se sentir desorientado? O sentido da vida e as identidades parecem, em grande medida, estabelecer coerência num mundo fragmentado e plural, nas narrativas biográficas. Ali se articulam memória e “projeto”, garantindo-se sentido a esse indivíduo fragmentário e múltiplo. A idéia de memória apontaria para uma visão retrospectiva e a idéia de projeto para uma visão prospectiva. As biografias quase sempre narram o passado e comentam projetos, seja os concluídos ou aqueles inacabados[16].
Um dos lugares que vem emergindo como espaço de intensa produção biográfica, e que exemplifica as formas como os indivíduos vêm lidando com a multiplicidade e fragmentação na cultura contemporânea, são as redes. O ciberespaço vem revolucionando a vida das pessoas, abrindo possibilidade de construção de trajetórias de vida virtuais que se articulam com as construídas na IRL[17]. Lugar de intensa elaboração do biográfico, de construção de “n” identidades, ali se constrói celebridades específicas desse tipo de ambiente (efêmeras ou mais duradouras como no IRL)[18]; expande-se a visibilidade das celebridades; amplia-se os laços da comunidade de consumidores, fãs; ou é também nesses espaços que as celebridades podem estabelecer uma relação menos desigual com seus fãs. A Internet é hoje um grande laboratório para se experimentar construções e desconstruções. Segundo Turkle, cada época teve seu padrão de valores fixos, papéis etc. A diferença é que nosso contexto contemporâneo, diferentemente de outros, está profundamente marcado pela fluidez e instabilidade. Exige-se hoje que o indivíduo tenha capacidade de adaptabilidade para desempenhar diferentes tarefas. Elabora-se um corpo metafórico para fazer frente a essas exigências de grande adaptabilidade. Aliás, a desaparição do corpo biológico é um importante ingrediente neste processo. Há uma sensação de crise de identidade, de saturação do self, de identidades deslocadas, transicionais: indivíduos no ciberespaço assumem várias vozes, razões e lógicas. Sua existência na rede permite construir e desconstruir seu self constantemente, tudo pode ser negociado, adotando múltiplas identidades com grande naturalidade. Ao invés da idéia de uma identidade unificada que convivemos até a modernidade, hoje vivenciaríamos diariamente uma experiência identitária múltipla e fragmentária[19]. A autora sugere ainda que somos encorajados a nos imaginar como fluidos, descentralizados. Ela identifica, de modo geral, uma experiência positiva no largo uso das redes, na construção de “ciberbiografias”. Assim, o ciberespaço significaria liberdade, beneficiaria-se do anonimato. Diferente do IRL em que precisamos ser um pouco mais coerentes quando adotamos uma preferência ou gosto, na rede somos múltiplos, contraditórios com menos pudores e preocupações morais[20].
Assim, cada vez mais, os indivíduos constroem a noção de self e um sentido para suas trajetórias de vida a partir de recursos simbólicos que eles devem fazer a costura. Nada mais é um dado e tudo se apoia crescentemente em elementos simbólicos mediados, isto é, o processo de formação do self cada vez mais depende do acesso às formas mediadas e menos dos recursos simbólicos disponíveis no contexto local. Como o indivíduo se utiliza cada vez mais desses recursos simbólicos mediados e eles estão em expansão e instabilidade, de certa forma é como se a instabilidade do mundo legitimasse a variabilidade de narrativas do self[21].
Elabora-se, assim um novo tipo de intimidade, e compartilha-se ela, não necessariamente através de uma relação de reciprocidade. A relação do fã e do ídolo exemplifica claramente isso. Alimentamo-nos dessas trajetórias de vida das celebridades, conhecemos mediaticamente sua intimidade que são importantes como entretenimento ou referenciais para construirmos isso que chamamos nossa trajetória de vida. É muito comum fãs confundirem em vários momentos a sua trajetória de vida com a da celebridade[22]. Thompson e Coelho problematizam a relação assimétrica entre fã e ídolo que se estabelece especialmente pela via mediática[23]. Thompson identifica esse consumidor ou fã como mais liberdade para agenciar representações, podendo modelar o tipo de relacionamento que deseja, isto é, capaz de determinar, por exemplo, que tipo de sentidos e significados ele quer atribuir às célebres trajetórias de vida das com a qual tem contato[24].
Nesses processos de construção e (re) construção do self, os indivíduos não são somente desterritorializados como poderiam sugerir as teses neoapocalípticas. Instala-se uma nova dinâmica de construção do self que implica em experiências vividas e mediadas, com mais destaque para a última. Nossas biografias cada vez mais ultrapassam os ambientes em que vivemos, isto é, há cada vez mais uma construção do eu menos presa ao local, mas que é continuamente reterritorializada no processo de recepção pelo público. O caso da globalização das narrativas biográficas de Diana é um exemplo interessante disso. As narrativas biográficas do seu falecimento não só talvez tenham sido as que alcançaram maior espaço na mídia neste século, mas provavelmente foram as que geraram um impacto social global só comparável, talvez, neste século ao clima de comoção gerado nas duas grandes Guerras Mundiais. [25]
O acesso constante a intimidade das pessoas hoje, segundo Mira, evidencia, por um lado, a crise do modelo burguês de família e intimidade, por outro, a ascensão de estilos de vida populares.[26] Analisando o sucesso das revistas de fofoca e dos realityshows, a autora destaca o papel da mídia na consolidação deste processo.[27] Os astros são os modelos deste novo estilo de vida: seus corpos são erotizados, desnudados e influenciam o consumo.[28] A ascensão de uma estética popular explicaria também a importância do erotismo para a construção das trajetórias públicas. Mira ressalta que as revistas de fofoca e os realityshows têm grande importância porque constroem através de seu material biográfico a sensação de que fazemos parte de uma família estendida[29], parte da Nação[30]. Nos dias que se seguiram à morte de Ayrton Senna, por exemplo, sob forte comoção, foram veiculadas várias cartas nos principais jornais e na Internet em que o público referia-se a sua morte como a perda de alguém da família, sempre presente nas manhãs de domingo[31].
A mídia, de certa maneira, recria o contexto de cidade pequena, bairro, formando comunidades de fãs e ídolos. A diferença é que a comunidade engloba contextos distantes, ou seja, os indivíduos não precisam se conhecer para formar uma “comunidade imaginada”: instaura-se relações íntimas que não são face a face, construindo-se o acesso a uma “intimidade a distância”[32].
Heróis e Celebridades – mérito e/ou engenharia mediática
Inúmeros autores fazem referência, de alguma forma, à crise do herói” ou, pelo menos, de um certo tipo de herói. Evidentemente, não é a crise do herói grego que garantia sentido a sua ordem social, mas sim a crise do herói masculino capaz de realizar grandes feitos, que aponta modos de vida, que é um modelo ético ou estético. Featherstone sugere que acompanharíamos hoje a emergência de heróis híbridos, contraditórios, anti-heróis, femininos e fortes, mas capazes, na mídia, de produzir uma identidade nacional que se confundem neste universo de celebridades. Ou seja, concorrem via mídia vários tipos de trajetórias de vida pública que, ora investimos afetiva e simbolicamente e ora observamos com curiosidade ou até certa indiferença. Valorizamos, por um lado, o homem comum, especialmente das minorias que enfrenta um mundo impessoal e massificado e, por outro, o herói que faz auto-sacrifícios, afinal ainda vivemos sob a hegemonia de uma cultura masculina, branca e ocidental. [33]
Muitos desses heróis se confundem com um sem número de celebridades que vemos surgir aos milhares todos os dias na mídia. As características que se exigem das celebridades não são necessariamente sacrifícios ou virtudes do caráter (moral, unidade, sinceridade) – como geralmente se exigia dos heróis –, mas que tenham personalidade, que possuam a capacidade de representar do ator, que apresentem um “eu colorido”, isto é, que sejam espetáculo.[34] Poderíamos nos perguntar inclusive, se, a intensa exposição e exploração da sensualidade do corpo masculino, geralmente atributos associados ao universo feminino, não compensaria a “crise do herói” hoje. Em outras palavras, até que ponto a intensa erotização de celebridades masculinas não vem ocupando o lugar dos feitos, da vida heróica?[35] Aliás, no lugar de um corpo masculino ou feminino bem definidos, parecemos assistir hoje a des-essencialização de papéis e corpos. Pereira sugere que o investimento é na reinvenção de corpos, espetacularizando-os, jogando com os papéis sexuais e sociais.[36]
Certamente temos hoje mais celebridades construídas a partir de uma engenharia mediática do que celebridades que alcançam o estrelato pela sua genialidade, pelo seu talento. O sucesso, mesmo dos heróis ou das celebridades talentosas, depende tanto de uma avaliação meritocrática quanto de um processo publicitário bem sucedido.[37]É difícil precisar o que teve peso decisivo neste processo de consagração, na medida em que as celebridades são na sua maioria construções que se articulam com a indústria do entretenimento. O caso do cantor sertanejo Daniel e da apresentadora de televisão Xuxa, ilustram bem essa questão. Sem questionar o talento do Daniel como cantor, poder-se-ia ressaltar que sua carreira teve um salto em função do desenvolvimento de certas estratégias mediáticas. Logo após a morte de seu parceiro João Paulo, seu empresário reconhece que se preocupou em construir a imagem do cantor como a de um astro solitário e romântico. Além disso, um dos indícios de que sua carreira é conduzida com cuidado, visando fazer de Daniel antes de tudo uma celebridade, foi a preparação que envolveu sua entrada no Guiness Book como a estrela que ficou mais tempo dando autógrafos até aquela data: 25 horas sem parar, envolvendo toda uma equipe de apoio que contou com nutricionistas, preparadores físicos e gritos de incentivo do fã-clube.[38]
No caso de Xuxa, segundo a revista Forbes, ela se tornou uma das artistas mais bem pagas do mundo, o que torna apenas mais impressionante sua trajetória como celebridade. Sem ter propriamente nenhum talento artístico, ela se tornou o maior fenômeno do mercado brasileiro das últimas décadas. Resultado em grande medida de uma carreira bem conduzida no âmbito de uma engenharia mediática. Em seu livro sobre a apresentadora, Simpson argumenta que seu estilo sexualmente provocante e aparentemente despropositado para a faixa de público para o qual seu trabalho se direcionava, a personificou na mulher ideal, dedicada a cortejar o interesse masculino e, ao mesmo tempo, dedicada à tarefa de cuidar de crianças e jovens. Além disso, a autora afirma que o seu namoro com Pelé – na época em que ela ascendia ao estrelato – permitiu que os brasileiros resolvessem sentimentos conflitantes que oscilam entre o reconhecimento de uma “identidade brasileira mestiça” e a celebração do “ideal de beleza branca, loura”.[39]
Convivemos, portanto, com uma constelação de ídolos que só alcançaram alguma projeção social porque desenvolveram características típicas do repertório das celebridades. Vivemos sob a hegemonia do espetáculo e, sendo assim, mesmo as trajetórias de vida dos heróis passaram a ganhar expressão – uma visibilidade com alguma durabilidade na mídia – na medida em que as narrativas biográficas construídas sobre os mesmos adquirissem a conotação de entretenimento. Tendo em vista a hegemonia das celebridades, poder-se-ia propor a seguinte tipologia: a) existem as celebridades heróicas que podem ser entendidas como aquelas que possuem algumas das características dos antigos heróis, mas já adaptadas à “sociedade do espetáculo”[40] (em geral no Brasil esse posto é ocupado por esportistas e alguns políticos); b) já as celebridades do showbusiness,propriamente,dividem-se em dois tipos, há, por um lado, aquelas que possuem mais talento artístico como, por exemplo, atrizes, cantores, dançarinos e outras personalidades e, por outro, as que apesar de possuírem alguma habilidade, conseguiram alcançar sucesso em função mais de estratégias mediáticas bem sucedidas; c) e, finalmente, temos as celebridades efêmeras que são trajetórias de vida de anônimos que protagonizam temporariamente o filme-vida.[41]
Aliás, sobre a platéia anônima, isto é, sobre todos os que estão do “outro lado do vidro”, pode-se observar um processo curioso. Com a ascensão e hegemonia do culto às celebridades, cada vez mais, não obter algum tipo de visibilidade temporária ou não fazer parte eventualmente do filme-vida, ganha uma enorme dramaticidade no mundo contemporâneo, marcado pelo entretenimento. Gabler observa que, no final do século XX, especialmente nos EUA, já se desenvolveram, “receitas” para isso. Todos os candidatos a celebridade vem adotando a estratégia estética do maior, mais barulhento (escandaloso) e mais rápido. Isso, segundo o autor, provocou um processo em cadeia que forçou os pretendentes à celebridade a se tornarem mais escandalosos (e até violentos) para serem notados em meio à balbúrdia e ouvidos em meio à gritaria.[42] Podemos mencionar a trajetória de duas socialites brasileiras que vem aplicando estratégias deste tipo: a primeira é a de Ariadne Coelho, mais conhecida como “Rainha das Quentinhas”, que mesmo envolvida em escândalos de corrupção com os órgãos públicos e suspeita de instalação de “escuta” na sua casa (que buscavam desvendar detalhes íntimos de sua vida pessoal), vem se empenhando para que o biógrafo de Lady Diana e Mônica Lewinsky escreva sua biografia[43]; ou ainda a de Narcisa Tamboreguy, que conseguiu espaço na mídia, ao criar polêmica, ao fazer da sua autobiografia um documento que supostamente poderia ajudar a CPI do Narcotráfico a esclarecer como as drogas chegam às camadas médias brasileiras[44].
Apesar das similaridades, a situação de anonimato não é vivenciada da mesma no Brasil. Enquanto nos EUA, por exemplo, a experiência da fama implica destacar-se numa sociedade moderna, liberal e democrática, no Brasil ela é vivenciada como uma experiência que radicaliza a hierarquização já existente na sociedade. Segundo Da Matta, o sujeito famoso se constitui numa espécie de “super pessoa”, aquela que, no limite, afirma, ao invés de perguntar: “você sabe com quem está falando?”[45] Assim, especialmente em países como o Brasil marcados pela desigualdade e exclusão social, em que essas oportunidades de visibilidade e ascensão social são menores, o anonimato é interpretado pelas camadas menos privilegiadas da população como um ato de violência, mais uma comprovação de sua falta de cidadania. Sua participação, portanto, em programas de auditórios, nos realityshows, quase sempre desempenhando, aos olhos das camadas médias, papéis constrangedores, deve ser vista também dentro dessa perspectiva, isto é, como uma forma de compensação, uma chance, mesmo que limitada, de serem protagonistas temporários do filme-vida.
Apesar de reconhecer que esses exemplos não se reduzem a isso e sem querer justificar essas ações, podemos encarar o caso de Jandir Guimarães dos Reis, artista plástico anônimo, que deixou a marca de sua mão impressa na tela “Mulheres de rua” de Joan Miró numa exposição realizada em 1995 no Centro Cultural Banco do Brasil[46] ou mesmo o recente “seqüestro” do ônibus 174 realizado por Sandro do Nascimento – ex-menino de rua e sobrevivente da chacina da Candelária – na Zona Sul do Rio[47], como tentativas desesperadas e confusas de superar o anonimato, de reagir a uma estrutura social violenta. Aliás um fato curioso no caso em que envolveu Sandro. Durante parte do seqüestro ele gritava para reféns, polícia, telespectadores e a multidão que acompanhava o desfecho do episódio: “isto não é um filme!”
Poder-se-ia afirmar que, no mundo contemporâneo em que todos nos tornamos potencialmente celebridades, vem se desenhando um novo panteão nacional brasileiro: ao lado de heróis típicos do passado como, por exemplo, revolucionários, políticos, esportistas e artistas, vem emergindo outra constelação de astros constituída por apresentadores de televisão, modelos e personagens freqüentes das colunas sociais.
A questão não é fazer uma avaliação positiva ou negativa dessas mudanças no imaginário social brasileiro, mas sim reconhecer a crescente importância do biográfico, especialmente o espetacularizado. Assim, quando os media oferecem mais espaço para noticiar o nascimento da filha de Xuxa – Sacha – do que o leilão de privatização da Telebrás, devemos tentar analisar esse episódio de forma não-simplista, evitando acusações de maniqueísmo por parte das editorias de jornalismo[48].
Finalmente, gostaria ressaltar que ainda carecemos de estudos na área de ciências sociais que não tratem a questão do boom do biográfico de forma preconceituosa, periférica ou marginal[49] e que, principalmente, redimensionem a potencialidade da “ilusão” que este tipo de narrativa promove[50]. Em suma, carecemos de estudos que identifiquem no sucesso do biográfico não só uma demanda pelo entretenimento e escapismo, mas também reconheçam que esse tipo de narrativas são cruciais para a atribuição de sentido e significado ao passado, à “realidade”. Enfim, o biográfico vem contribuindo para a ordenação, ainda que de forma transitória, de um mundo marcado pela dispersão, efemeridade e pluralidades.
[1] Agradecemos à nossa auxiliar de pesquisa, Wanise Clare Plischke pelo levantamento do material biográfico.
[2] Cf. Richard DYER. Heavenly Bodies: Film Stars and Society. Nova York: St. Martin Press, 1986. p. 2-3.
[3] Richard Stolley, editor da revista norte-americana People.
[4] Evidentemente Galisteu e Sacha tornaram-se celebridades pela proximidade que suas trajetórias de vida tem ou tiveram com grandes ídolos. Mais detalhes, ver Isabela BOSCOV. A era das celebridades. Veja. São Paulo: Editora Abril, n. 2, 12 de janeiro de 2000.
[5] Segundo Neal Gabler, a indústria do entretenimento e da comunicação transformou a vida num filme, em mais um produto dessa indústria. Basta uma rápida olhada nas revistas de fofocas e colunas sociais (na mídia impressa), talkshows e realityshows (na TV) e chats e sites (na Internet) para constatar isso (id.).
[6] Cf. Id., p. 12-15.
[7] O surto do gênero biográfico pode estar revelando um desejo por parte das sociedades, num mundo cada vez mais impessoal de recuperar uma sociabilidade marcada por experiências trocadas diretamente. Nesse contexto, os media tornam-se sedutores e fundamentais. Não só são os espaços de troca de informações e experiência, a possibilidade dos indivíduos se perceberem como parte de uma “comunidade” (mais detalhes, ver Elizabeth RONDELLI e Anamaria FILIZOLLA. Equilíbrio distante. In: Lugar Comum. Rio de Janeiro: NEPCOM-ECO/UFRJ, julho-novembro de 1997, p. 222-224).
[8] Miriam Lins e Barros ressalta, por exemplo, que a fotografia como um tipo de narrativa biográfica não verbal se constituiria no nosso imaginário enquanto uma espécie de “prova” de nossa condição humana (cf. Memória e família. In: Estudos Históricos. Memória. São Paulo: Vértice, n. 3, 1989).
[9] Cf. Elizabeth RONDELLI e Micael HERSCHMANN. Los media y la construcción del biográfico – la morte en escena. In: Diálogos de la Comunicación. Lima: Felafacs, n. 55, 1999.
[10] Cf. Jacques LE GOFF. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1996.
[11] David LOWENTHAL. Como conhecemos o passado. Projeto História. Revista de Estudos dos Pós-Graduandos em História do Departamento da PUC-SP. São Paulo: EDUC, 1981.
[12] Inclusive, a morte ou a proximidade com ela são deflagradores de narrativas biográficas (mais informações, ver Elizabeth RONDELLI e Micael HERSCHMANN. Op. cit.).
[13] Segundo Pierre Nora, os lugares da memória: são simples, ambíguos e artificiais, suscetíveis a mais abstrata elaboração. São materiais, simbólicos e funcionais (mais detalhes, cf. Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1984).
[14] Ver Stuart HALL. Identidades Culturais na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1997, p. 10-12.
[15] Evidentemente, há diferenças entre a grau de adesão entre uma identidade já “dada” (que nasce com o sujeito), étnica e outras adquiridas em função das opções e escolhas. Mais detalhes, cf. Gilberto VELHO. Projeto e Metamorfose. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994, p. 97-98.
[16] A noção de um “projeto” pessoal – que sugere mais um campo de possibilidades do que objetivos claros e definidos – só é possível nas sociedades modernas, individualizantes. Pressupõe a idéia de indivíduo-sujeito: é ele que traça projetos. (Id., p. 102-102).
[17] Nomenclatura tradicionalmente usada em inglês. IRL significa (In Real Life). Desenha-se duas dimensões de atuação do indivíduo: ciberespaço e IRL. Mais informações sobre o ciberespaço e sua conseqüências para a sociedade contemporânea, cf. Nicholas NEGROPONTE. A vida digital. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.
[18] Jennifer Ringley, mais conhecida como JenniCAM, tornou-se uma celebridade mundial, desde de que colocou em rede, em 1997, para os assinantes do seu site, a sua intimidade, o cotidiano de sua casa. Seu site em 1999 foi um dos mais visitados (Disponível através do URL: <http://www.jennishow.com>.
[19] Sherry TURKLE. Life on the Screen. Identity in the Age of the Internet. Nova York: Simon & Schuster, 1995. p. 254-257.
[20] Id., p. 263-265.
[21] Ver John B THOMPSON. Mídia e modernidade. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 184 -185.
[22] Filmes como Rei da Comédia,de Martin Scorcese, e Truman Show,de Peter Weir, são muito felizes na abordagem dessa questão. Para não ficar apenas no terreno do ficcional, podemos citar como exemplo a tentativa de seqüestro sofrida pela apresentadora de TV Xuxa Meneghel e a, na ocasião, paquita Letícia Spiller, no Teatro Fenix (Zona Sul do Rio de Janeiro), em 1991. Apesar do caso nunca ter ficado muito esclarecido, ao que tudo indica, dois irmãos, Douglas e Alberto Loricchio, teriam ido à gravação do programa em que ambas trabalhavam com o intuito de “libertá-las”. Segundo um depoimento confuso que um deles teria dado aos policias que o prenderam, ele e o irmão estavam apaixonados e achavam que ambas “estavam sendo sexualmente exploradas” (mais detalhes do caso, cf. Amelia SIMPSON. Xuxa: megamarketing do sexo, da raça e da modernidade. São Paulo, Sumaré, 1994).
[23] Ver id., e Maria C. COELHO. A experiência da fama. Rio de Janeiro: Ed. da FGV, 1999.
[24] John B. Thompson ressalta que entrar para um fã clube é fazer parte de uma comunidade de consumidores. O autor indaga-se se todos em algum grau não somos fãs: “há formas de admiração exaltada que não implicam necessariamente o cultivo intensivo de relações de intimidade recíproca; muitos fãs de esporte, por exemplo, podem desenvolver laços de fidelidade com times particulares mais do que com jogadores particulares. Além disso, ser fã tipicamente implica muito mais do que uma orientação afetiva para com um outro distante. Fãs se ocupam de uma variedade atividades e práticas sociais como colecionar discos, fitas, vídeos e outros produtos da mídia; construir coleções de lembranças, recortes de jornal, revistas, fotos etc.; ir a concertos, filmes, partidas etc.; escrever cartas a outros membros de um fã-clube; associar-se a fã-clubes e participar de reuniões e convenções; e o que é mais importante, ocupar-se de conversas regulares – face a face, ou pelo telefone, ou ainda através da rede de computadores – com outros indivíduos com os quais têm muito pouco em comum exceto o fato de serem fãs” (cf. id., p. 193).
[25] Só os jornais britânicos, só nos seis meses após a sua morte, dedicaram 35% de espaço a temáticas relativas a Diana. Eventos como a Segunda Grande Guerra ocuparam apenas 25% (cf. Cobertura de Diana é recorde. Folha de São Paulo. São Paulo, 01.10.97, p. 19).
[26] Mais detalhes, ver Maria Celeste MIRA. Invasão de privacidade? In: Lugar Comum. Rio de Janeiro: NEPCOM-ECO/UFRJ, n.5-6, maio-dez. de 1998.
[27] Nos últimos anos, no Brasil, acompanhamos à expansão desse tipo de mídia: a) revistas como a Caras, Chiques e Famosos, IstoÉ. Gente, Fatos e Fotos; b) e programas polêmicos como Leão Livre, Ratinho, Linha Direta têm trazido um excelente retorno de público.
[28] Jogadores, atores, cantores e outras personalidades do showbusiness têm feito comerciais provocantes, de cuecas, toalhas ou mesmo pousado nus para revistas GLS ou femininas. Ver também Carlos Alberto M. PEREIRA. Que Homem é Esse? O Masculino em Questão. In: Sócrates NOLASCO. (org.) A Desconstrução do Masculino, Rio de Janeiro: Rocco, 1995; e Benedito MEDRADO. Discursos sobre o Masculino – um panorama da masculinidade na mídia. In: Lugar Comum. Rio de Janeiro: NEPCOM/ECO-UFRJ, no 2/3, julho/novembro 1997.
[29] Ver Maria Celeste MIRA. Invasão de privacidade? In: op. cit.
[30] A Nação é aqui encarada como uma “comunidade imaginada” tal como sugere Benedict Anderson (In: Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989).
[31] As corridas do circuito de Fórmula 1, do qual Senna participou por vários anos, vêm geralmente sendo transmitidas pela televisão brasileira nas manhãs de domingo, cf. Paulo SCARDUELLI. Ayrton Senna. Herói da mídia. São Paulo: Brasiliense, 1995; e também Elizabeth RONDELLI e Micael HERSCHMANN. Os media e a construção do biográfico – a morte em cena. In: op. cit.
[32] Maria Celeste Mira observa que, nas camadas populares, o acesso a intimidade de face a face nunca desapareceu completamente, mas para a sociedade como um todo a intimidade que se tem contato agora é intensa, a distância e não presencial. A autora ressalta ainda que, a maneira das famílias das camadas pobres se apropriarem dos conteúdos veiculados na mídia e do biográfico ali veiculado é bastante diferente das camadas médias. O processo é mais coletivo, participativo. A tevê ocupa um lugar central na casa e há um ritual praticamente diário da família assistir juntos a vários programas (telenovelas). A autora destaca ainda a posição da tevê, de frente para a porta da frente, quase sempre aberta (divisão entre o espaço da casa e da rua é muito tênue). Discute-se intensamente, nesses segmentos sociais, a vida dos personagens, das biografias mediatizadas. Há, portanto, quase que naturalmente a participação de vizinhos e transeuntes na vida daquela família, das celebridades ou dos anônimos que aparecem na tevê. Para as camadas populares, sempre foi – mesmo na modernidade – natural o acesso a intimidade. A novidade hoje é o acesso a “intimidade a distância” (cf. “Invasão de privacidade?” In: op. cit.).
[33] Cf. Mike FEATHERSTONE. O desmanche da cultura. São Paulo: Studio Nobel/SESC, 1997.
[34] Ver Joshua GAMSON. Claims to Fame: Celebrity in Contemporary America. Nova York: Paperback, 1999.
[35] Cf. Nízia VILLAÇA e Fred GÓES. Em Nome do Corpo. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1998.
[36] Mais detalhes, ver Carlos Alberto M. PEREIRA. Que Homem é Esse? O Masculino em Questão. In: op. cit. Outra argumentação interessante é a de George Bataille. O autor sugere que a erotização do eu mediado, das celebridades na mídia seria resultado da exacerbação, da carência do homem que cada vez mais se sente descontínuo é busca a fruição, fusão com corpos, especialmente desses personagens. Daí o apelo que a erotização tem para essas celebridades: aumenta o carisma e a fascinação que produzem. Segundo Bataille, a erotização do self mediado produz, em certo sentido, a supererotização da sociedade contemporânea (mais detalhes, cf. Georges BATAILLE. O Erotismo. Lisboa: Edições Antígona, 1988).
[37] Gamson ressalta que o culto às celebridades nasce junto com a indústria do jornalismo. A indústria do jornalismo e principalmente a imprensa sensacionalista exploravam a vida privada dos indivíduos. A presença e popularização das fotografias nos jornais vais ser fundamental para oferecer uma face ao público, iniciando-se a publicização das personalidades. Isso vai deslanchou com a indústria do cinema, formando um star system. Esse star system formou-se com o crescimento das produções e a percepção de que fazer filmes com estrelas é mais rentável. A identificação do público com seu astro se mostrou rentável. O papel da “mídia de fofoca” foi e é super importante, amplificando o star system e colaborando na glamourização dos ídolos. Primeiras revistas falavam da virtuosidade das estrelas, sua genialidade etc. As primeiras celebridades eram retratadas como uma espécie de heróis. Inicia-se um processo de invasão da vida privada mostrando-se todos os detalhes da vida dos ídolos. Quanto mais o público tem a sensação de que está acessando a vida real daquela celebridade, mais o veículo tinha sucesso de público. Um dos resultados deste processo é que, especialmente após a 2ª Guerra Mundial, a visão glamouriosa da celebridade soa cada vez mais falso, desinteressante, e é sacrificada em nome da demanda pelo realismo. É isso que vai trazer lucros e legitimidade a mídia da fofoca, mexericos. O público não pode achar que aquilo é artificial, mesmo as estratégias de marketing, divulgação devem ser bem elaboradas. Passou-se a se privilegiar as histórias que mostram o lado obscuro, não heróico, escandaloso da biografia das estrelas. (cf. Joshua GAMSON, op. cit.).
[38] Além de ter contracenado com Xuxa no sucesso de bilheteria Xuxa requebra,seu último CD no estilo sertanejo romântico intitulado Levando a vida vendeu 800 mil cópias. Faz 12 apresentações ao mês e assina linhas de sapatos, cuecas, cadernos, chapéus, agendas e fatura cerca de três milhões com os produtos (mais detalhes sobre a sua trajetória, cf. Rodrigo CARDOSO. Daniel, o sertanejo que toca o coração. In: IstoÉ Gente. São Paulo: Comunicação Três, n. 20, 20 de dezembro de 1999, p. 59-65). Sobre seu esforço para bater um novo recorde, cf. Levando a vida na canção. In: Rodeo Country. Ano III, n. 19, 1999, p. 62-63.
[39] Mais detalhes, cf. Amélia SIMPSON. Xuxa. Op. cit., p. 14-15.
[40] Sobre o papel espetáculo na cultura contemporânea, ver Guy DEBORD. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1977.
[41] Seriam aquelas situações em que pessoas comuns vivenciariam aquilo que Andy Wahrol qualificou como os “quinze minutos de fama” (mais detalhes, cf. Neal GABLER. Op. Cit.).
[42] Id., p. 180-181.
[43] Márcia VIERA e Karla MONTEIRO. Escândalo põe em evidência realeza das quentinhas. In: Veja. Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Abril, 07 de junho de 2000, p. 6-9.
[44] Polícia ouvirá socialite sobre o tráfico de drogas entre a elite (on line). Disponível através do URL: <http://www.globo.com>. Rio de Janeiro, 11 de maio de 2000.
[45] Mais detalhes, cf. Roberto DA MATTA. Carnaval, Malandros e Heróis. Rio de Janeiro: Zhar, 1979.
[46] O artista afirmou, na ocasião, que seu ato era uma forma de protesto, de chamar a atenção das autoridades para a falta de apoio que o Estado concede ao setor das artes plásticas (mais detalhes, cf. Polícia prende artista que danificou Miro. Folha de S. Paulo. Cotidiano. São Paulo, 20 de dezembro de 1995, p. 3-4).
[47] Em certos momentos, Sandro parecia durante quatro horas conduzir um realityshow sob a luz das lentes ali presentes, que cobriam ao vivo o seqüestro. De certa maneira, ele parecia estar dando um espetáculo e usufruindo daquela situação inédita de visibilidade. Cantava raps, gritava frases bombásticas, gesticulava-se e expunha-se excessivamente aos atiradores de elite (a esse respeito, ver Paulo STERNICK. Isto não é um filme. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 20 de junho de 2000, p. 11). Além disso, poder-se-ia dizer que o seqüestrador era um homem quase sem biografia, no mínimo, um anônimo de passado misterioso. Na ânsia de determinar os motivos para tal crime, inicia-se na mídia um processo de intensa biografização desse indivíduo e descobre-se que ele era conhecido por diversos nomes e apelidos (Alex, Mancha etc). Mesmo a mulher que dizia ser sua mãe teve o exame de DNA não comprovado (mais detalhes ver Seqüestro a ônibus no Rio termina com morte de um refém (on line). Disponível através do URL: <http://www.globo.com> Rio de Janeiro, 12 de junho de 2000; e Marceu VIERA et all. Tragédia brasileira. Época. Rio de Janeiro: Editora Globo, ano III, n. 109, 19 de junho de 2000, p. 36-42.
[48] Não que questões políticas não possam estar envolvidas. Mais detalhes, cf. Fernando de Barros SILVA. Xuxa, Globo e Brasil S/A. Folha de S. Paulo. TV Folha. São Paulo, 09 de agosto de 1998, p. 2.
[49] Sobre essa carência de estudos sobre o biográfico, cf. Elizabeth RONDELLI e Anamaria FILIZOLLA. Equilíbrio distante; e Benito SCHMIDT. Construindo biografias... Historiadores e jornalistas: aproximações e afastamentos. In: Estudos Históricos. Indivíduo, biografia, história. Rio de Janeiro: Ed. da FGV, vol. 10, n. 19, 1997.
[50] Sobre a ilusão de unidade, coerência produzida pelo biográfico, cf. Pierre BOURDIEU. A ilusão do biográfico. In: M FEREIRA e J. AMADO. Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro: FGV, 1998.